domingo, 22 de setembro de 2013

Rotina

Tem quem diga que a rotina mata, mas é impossível escapar dela (ou da morte). Marina sabia muito bem
disso, só não se resignava e nem deixava que essa fosse sua causa mortis.
Para piorar a rotina de Marina, o seu meio de transporte diário para o trabalho era o metrô. Para ela, sortudos eram os passageiros de ônibus que podiam aproveitar uma paisagem durante a viagem. Mesmo que fosse a da Avenida Brasil.
Numa tentativa de tornar a rotina mais agradável, Marina tinha o hábito de olhá-la como se, a cada esquina, fosse encontrar algo inédito. Como acontece quando estamos em uma cidade que não conhecemos e cada esquina, prédio ou pessoa é uma deliciosa novidade.
No metrô não era possível colocar esse hábito em prática, afinal, é difícil imaginar novidades no escuro dos túneis. Mas é sabedoria popular que há sempre uma luz no fim do túnel. No caso de Marina, a luz estava no alto da escada.
Todas as vezes que subia os degraus para deixar o fundo da Terra, ainda sem conseguir ver nada além do céu, ela imaginava (se enganando deliberadamente) o que veria ao chegar no último degrau. Qual seria a surpresa? Como seriam os prédios? Haveriam árvores? Pombos comendo pipocas jogadas por um velho solitário?
Só que Marina sempre encontrava a mesma cena rotineira, dia após dia. Mas isso não a entristecia por completo, essa autoenganação valia a pena. Aqueles poucos segundos de expectativa antes da triste decepção eram deliciosos. Uma espécie de vício alimentado todos os dias pela expectativa empolgante seguida dos resultado decepcionante, cotidianamente, como um fumante que sabe dos males do cigarro, mas ainda não é capaz de largá-lo. Ela era viciada nesse ciclo de expectativa e decepção constantes.
Mas um dia a decepção não veio. Distraída pela rotina, Marina desceu na estação errada e finalmente encontrou a tão esperada surpresa a esperando no último degrau. Só não se sabe se a novidade foi melhor que a rotina.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Eu vi - O renascimento do parto

Direção: Eduardo Chauvet
Gênero: Documentário
Ano: 2013
Duração: 90 min
País: Brasil

Fui assistir ao documentário depois de ouvir muitos comentários favoráveis ao filme vindos das mais diversas pessoas e sai do cinema com a mesma opinião sobre o filme: ele é ótimo!
Penso, porém, que há de se ter um cuidado, pois acho que o documentário tende a glamourizar demais o parto humanizado, especialmente por causa da edição de imagens que mostram lindas cenas de partos humanizados em casa, enquanto os partos no hospital parecem um verdadeiro filme de terror – daqueles bem sangrentos! Já os discursos são mais sensatos (com exceção do entrevistado que fala inglês com sotaque que dá algumas deliradas) e colocam que os partos no hospital não são esse horror todo em muitos casos.
Mas, glamours a parte, o filme faz mesmo pensar na questão de se colocar o parto como um procedimento médico. Realmente pode ser que seja, há casos em que a cirurgia e intervenção de um médico são a única saída para salvar a vida de mães e bebês. Só que isso devia ser e a exceção e não a regra como vem acontecendo no Brasil, onde mais da metade dos partos já acontece por meio de cesáreas.
O corpo feminino foi feito para ter filhos, então, ele assim os terá naturalmente, a não ser que algo dê errado. Acontecendo isso, o médico deve entrar em ação e ser o herói da história.
O documentário coloca em discussão uma grande questão: somos pacientes ou clientes dos médicos? Porque, pelo pelo grande números de cesáreas eletivas que acontecem no Brasil, parece que o bebê é um produto que é produzido a partir de um procedimento padrão e que deve durar um tempo necessário e acontecer no horário comercial, de segunda a sexta. Não entendo que razão leva uma pessoa a escolher ser obstetra se ela só quer trabalhar nos dias se semana e de 9 às 17. Se quer isso, vai ser funcionário público ou médico de outra especialidade. Acho que alguns profissionais estão precisando rever seus conceitos de ética e compromisso com a profissão escolhida.
Não quero parecer uma hippie roots alternativa prafrentex daquelas bem sem noção, mas, depois desse filme, eu decidi que se tiver um filho, quero que ter um parto natural e, se possível, em casa mesmo. É uma vibe Lagoa Azul demais?
Visitem o site do filme, é bem bacana e acaba com alguns mitos usados como desculpas para se fazer cesáreas.

Pra quem quiser, o trailer:


sábado, 27 de julho de 2013

Eu li - Garota exemplar

Nome original: Gone girl
Autora: Gillian Flynn
Número de páginas: 448
Editora: Intrínseca

Eu adoro um best seller! É só eu ir na livraria que já fico doida para ler uns 10 livros que estão na estante de mais vendidos. Até mesmo 50 tons de cinza eu quis (e tentei) ler. 
Quando vi Garota exemplar na livraria me interessei. Li a sinopse e achei que pudesse ser um daqueles livros que pode prender bastante a atenção. Nunca acho que um best seller vai ser algo que vai mudar a minha vida (apesar de já ter lido alguns especialmente bons e que me marcaram muito), acho que pode ser um ótimo entretenimento.
O livro conta a história do sumiço de Amy (a tal garota exemplar) de dois pontos de vista diferentes: o dela e de seu marido Nick. Ao longo do livro vamos descobrindo a personalidade dominadora de Amy e meio boboca de Nick e também da história do casamento deles, aparentemente normal. O casamento, aliás, é normal, vemos que tiveram bons momentos, mas que passava por uma má fase. O que descobrimos é que, na verdade, um dos dois é um tanto quanto estranho (sem falar quem é para evitar spoiler), o que leva a história ao seu desenrolar rocambolesco.
O livro tem uma frase marcante no verso "O casamento mata". Um clichê, ok, mas achei que ele pudesse tratar mais o tema. Não acho que ele traz algum tipo de conceito que faça as pessoas repensarem seu casamento ou sua vontade de casar.
Eu não tenho muita certeza da minha opinião quanto ao livro, mas acho que no fim das contas ele cumpriu o que eu tinha pensado dele, me divertiu e prendeu minha atenção. No começo ele é meio lento e um pouco maçante, mas depois a história vai engrenando e se tornando bastante rocambolesca. Por isso, talvez, não tenha gostado tanto do final, esperava algo que fosse mais a altura do desenrolar da história. Recomendo para quem quer uma boa opção de leitura de entretenimento. Mais um best seller que não me arrependi de comprar.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Eu vi - Antes da meia-noite

Nome original: Before midnight
Direção: Richard Linklater
Gênero: Drama/Romance
Ano: 2013
Duração: 108 min
País: EUA/Grécia

Antes da meia-noite encerra (?) a história de Jesse e Celine, que começou há quase 20 anos, na ficção e na vida real, dado que o primeiro filme é de 1995. 
Depois de se conhecerem em um trem em Antes do Amanhecer, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se reencontram em 2004 em Paris, em Antes do pôs-do-sol, e vivem tudo aquilo que não puderem nove anos antes.
Os dois filmes são totalmente baseados em diálogos (interessantíssimos, a meu ver) do casal. Em Antes da meia-noite não é diferente. A primeira cena que mostra o casal é em um carro e dura muitos minutos sem nenhum corte, um diálogo que realmente podia ter acontecido. A química dos atores ajuda nisso, eles são incrivelmente naturais juntos. Eu os vejo como um casal de verdade que está junto há muitos anos.
Nesse terceiro filme eles estão casados e são pais de duas filhas gêmeas. Jesse ainda tem um outro filho do seu primeiro casamento. A partir daí o filme segue um clichê: casais juntos há muito tempo precisam ter DRs. 
Apesar disso, o filme tem um ótimo ritmo. Até porque, em se tratando de Jesse e Celine mesmo as DRs são interessantes. Eles discutem tudo aquilo que muitos casais discutem. Pode ser clichê, mas é bem verdade que manter relacionamentos longos (e verdadeiros) sem discussões é ligeiramente impossível.
Os românticos  de plantão não precisam se preocupar: entre uma alfinetada e outra, o casal tem os seus momentos de puro romance. E, sendo DR ou não, os diálogos são sempre muito interessantes e bastante sarcásticos em alguns momentos. Mesmo sendo um filme recheado de longos diálogos muitas vezes existencialistas, ele passa longe de ser cansativo, muito pelo contrário, nem vi o tempo passar e fiquei com gostinho de quero mais quando os créditos apareceram.
Nem preciso dizer que amei esse terceiro filme da franquia Antes do. Já quero ver de novo! De preferência uma maratona da trilogia. #hajacafe

terça-feira, 25 de junho de 2013

Eu li - O apanhador no campo de centeio

Tô ficando moderna, mas ainda
amo os livros de papel. Especialmente
o cheiro!
Nome original: The Catcher in he Rye

Sempre quis ler esse clássico, mesmo sabendo muito pouco sobre seu enredo. Sabia apenas que era uma história sobre um adolescente.
Li e nem sei muito o que pensar do livro. Acho que foi um pouco decepcionante, mas talvez por ter lido em uma época errada. De repente, se tivesse lido na minha adolescência teria gostado mais.
Eu não desgostei do livro, mas também não gosteeeeei. Ele não me conquistou, mas também não quis largar antes do fim.
Quanto ao enredo: o livro conta um fim semana na vida de Holden Caulfield, um adolescente de 16 anos da década de 40. Holden acabou de ser expulso do colégio -daqueles bem tradicionais - e decide passar o fim de semana fazendo o que der na telha na cidade de Nova Iorque antes que seus pais fiquem sabendo da sua expulsão.
Holden vai a bares para beber e ouvir músicas, conversa com taxistas, sai com uma menina, fica se lembrando de outra, devaneia sobre seu futuro, encontra a irmã pequena e fala sobre um irmão já falecido, tudo isso com a maior naturalidade, o que talvez nos aproxime dele.
Apesar de ter achado o livro fraco, a certa altura você vê Holden não apenas como um adolescente problemático - e talvez até rebelde sem causa -, mas como uma pessoa com problemas e questionamentos que qualquer pessoa pode ter.
Mesmo que de maneira superficial, o livro é um pouco angustiante em alguns momentos. Temos simpatia e compaixão por Holden. Conseguimos compartilhar os sentimentos dele em alguns momentos. O que eu considero como o grande mérito do livro. Quem tem curiosidade para ler esse clássico, acho que vale a pena! A leitura é rápida e fácil.

Primeiro livro que leio no meu kindle! Adorei ler na tela do kindle é mesmo como uma folha de papel. A vista não cansa. Estou apaixonada pelo meu leitor digital, mas ainda digo que amo ler (e comprar) um livro de papel. Poucos cheiros são tão bons quanto o de um livro novo #alokadoscheiros Mas o kindle tem também uma grande vantagem: seu peso. Livros de muitas e muitas páginas pesam apenas alguns gramas na minha bolsa. A coluna agradece!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ensaio sobre a intolerância (e suas desculpas)

"Você tem que entender que eu sou de uma época que isso não era normal"
Todo mundo já deve ter ouvido alguém falar isso ou alguma coisa parecida para justificar o fato de não aceitar algo comum na sociedade atual, mas que não era há algum tempo. Mas será que esse tipo de argumento é válido?
Posso não querer colocar um
piercing ou fazer uma tatuagem, mas quero
continuar a jogar video-game
quando for velhinha. Mas prefiro um wii.
Eu não acho que a data do seu nascimento possa ser uma explicação plausível para a sua intolerância. Aliás, para mim, não existe nenhuma explicação para isso. Mas, penso eu, que a pessoa que diz uma coisa do tipo, não se acha intolerante. No mínimo, ela pensa que o fato de ser de outra época a deixa isenta da falta de tolerância.
Eu não consigo encontrar a ligação entre ser de outra época e não tolerar certas coisas de hoje. Será que essas pessoas que usam esse argumento para justificar não aceitar a homossexualidade, por exemplo, o usariam também para ser contra os avanços na medicina? Ou alguém já ouviu uma pessoa falar "Não vou tomar esse remédio ótimo para minhas dores nas costas porque na minha época não era assim"?
É claro que nem toda mudança da sociedade nós temos que aceitar. Podemos ser intolerantes em alguns aspectos, às vezes, até devemos. Só que não suportar o outro simplesmente porque ele é diferente de você e não é da sua época é um pouco demais para mim.
Mas o que me preocupa mais, antes eu mesma julgar quem usa esse argumento, é pensar se algum dia eu serei assim. Será que em algum momento da minha vida eu vou pensar que posso ser intolerante porque sou de outra época? Será que vou parar no tempo e não acompanhar as mudanças da nossa sociedade? Eu sinceramente espero que não.
Pode ser que não esteja nos meus planos ser uma vovó toda tatuada e com piercing nos mamilos. Mas que eu continue conseguindo acompanhar as mudanças e, principalmente, entendê-las e aceitá-las. Se for pra escolher, eu prefiro um piercing nas minha peitcholas caídas a não saber dialogar com meus netos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Eu vi - Anna Karenina

Criando uma nova tag para dar um gás no blog (espero não virar aloka das tags). Eu vi vai servir para mostrar a minha humilde opinião sobre os filmes que vejo. Tenho visto poucos, mas sempre quero ver vários. Só preciso aprender a otimizar meu tempo livre para conseguir fazer tudo ou boa parte de tudo que quero fazer.
Sobre os posts que faço/farei sobre livros e filmes, vou evitar spoilers, mas quando achar que preciso fazer isso, vou avisar (em letras garrafais) antes para que ninguém leia alguma coisa comprometedora desavisadamente. 

Nome: Anna Karenina
Direção: Joe Wright
Gênero: Drama
Ano: 2012
Duração: 129 min
País: Reino Unido





Baseado no livro homônimo de Leon Tolstoi, o filme se passa na Rússia Czarista do século XIX e conta a história de Anna Karenina (vivida por Keira Knightley) uma mulher casada e que tem um filho com um rico funcionário do governo, Alexei Karenin (Jude Law). Até ai ela tinha uma vida aparentemente normal para uma mulher da época. Porém, ao fazer uma viagem para Moscou para encontrar uma cunhada, Anna conhece Conde Vronsky (interpretado por Aaron Johnson, de O Garoto de Liverpool) e passa a ser cortejada por ele. Anna evita o rapaz por um tempo, pois não gosta da ideia de trair o marido, mas logo cede a tentação e passa a ser sua mistress
Decidida a manter a sua relação com Vronsky, Anna tenta o divórcio. Mas Karenin, além de não concede-lo, ainda impede Anna de ver o próprio filho. A partir dai toda a mer** começa a acontecer. Mas não vou falar mais para não dar spoilers.
Achei um bom filme, o enredo é envolvente e interessante. A estética é bem bacana e diferente. Boa parte da história acontece em um antigo teatro e as transições entre as cenas, especialmente no começo do filme, são bem legais. Adorei as cenas que mostram as viagens de trem. Só não consigo me conformar com a Keira, acho ela uma pessoa bastante estranha, nem sorrir sem fazer careta ela consegue. Mas mesmo com uma cara feia aqui e outra acolá, ela tem uma atuação que não compromete o filme. Daria uma nota 8 pra ele.

*SPOILER*
No final do filme, um dos personagens fala que finalmente entendeu uma coisa. Eu não consegui sacar o que foi. #burra Alguém que viu o filme entendeu o entendido?